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Num mundo que avança imparável em direção à densificação urbana e à antropização dos ecossistemas, paradoxalmente, o ser humano parece reivindicar uma ligação com as suas raízes naturais e a sua origem ancestral selvagem. Cada cidade, vila ou aldeia, por mais tecnificada que seja, guarda na sua geografia e tem gravado no seu imaginário uma referência natural que funciona como âncora ancestral: um monte protetor, um rio sinuoso, uma caverna misteriosa ou uma formação rochosa. Assim, o Rio de Janeiro não se compreende sem a imponente silhueta do Pão de Açúcar a recortar-se contra o Atlântico. Paris respira ao ritmo do Sena, que separa e une as suas margens, e as montanhas testemunhas do Novo México, erodidas ao longo de milénios, sussurram-nos a presença primitiva do homem primitivo, quando este habitava as entranhas da terra como um troglodita, fundindo a sua pele indígena com a pedra e a sua memória com a paisagem. Essa geografia sagrada não é um cenário, mas um espelho onde a cidade se reconhece, frágil e eterna, parte de um ciclo que a transcende. Este livro que tens nas mãos não é mais do que uma tentativa de medir, com compasso e verso, aquilo que só o silêncio sabe guardar.